segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O Inocente Míope


Certa vez conheci um menino que nasceu míope. Ele enxergava o mundo desfocado e limitado, porém ele não sabia que era míope e por isso, para ele, não existia problema. Assim o mundo para ele se limitava a uns poucos metros de clareza. Não entendia como seus amigos conseguiam copiar do quadro tão rápido, ver as pipas tão altas no céu, jogar bola de gude sem errar, acertar uma pedra no alvo, contar estrelas no céu... Apesar de tudo ele era feliz. Via o importante com foco; sua família, seus amigos, seus livros, seus sonhos. Seu mundo era “perfeito”, não via maldade nos olhares alheios, não enxergava além. Vivia o presente próximo e enxergava com o coração. Passados os anos descobriu que teria de usar óculos. Foi então que seu mundinho ruiu. Passou a ver pobreza, desigualdade, violência, coisas que não presenciava com clareza, agora eram cotidianas. Já não compensava enxergar as estrelas. Preferia viver em seu mundo limitado, míope, que suportar a cegueira do mundo que o cercava.