segunda-feira, 30 de maio de 2016

Irritante vida Irritante

Tenta abrir os olhos, impossível.
Preso, com o corpo espremido, sufocado,
já não reconhece os limites do seu corpo.
Sua mente vaga, infinita, num turbilhão de pensamentos.
O que aconteceu? Onde estou? Morri?
Escuridão...
O ar viciado que insiste retornar
e uma coceira, persistente, na cabeça.
Coceira enjoada que se espalha,
desce pelo corpo e percorre a pele,
como vermes que caminham por baixo da terra.
Se sacode, compulsivamente,
em vão.
Um peso enorme o comprime.
Neste momento, nada mais importa,
só coçar, arrancar a pele e coçar.
A loucura para saciar sua vontade,
lhe faz acreditar na vida.
Só esta pode ser tão cruel e insana
ao ponto de negar uma necessidade tão básica.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

A Sociedade dos Canibais



O curso da história tomou abruptamente um destino cruel quando, por razões improváveis e quiçá até ilógicas, restou ao homem apenas ele mesmo. Não em um sentido filosófico, existencialista... Nada disso. Era tão literal quanto poder-se-ia digerir: Se foram todas as coisas. Todas. As que o homem inventou e as que ele havia tomado para si, tudo se foi.
Menos o homem.
Como todas as coisas grandiosas, os primeiros sinais desta reviravolta histórica foram modestos, escamoteados nos incríveis dilemas do cotidiano do homem. Pois foi assim que os lápis, as canetas e os gizes se foram, sem que ninguém ousasse prever o que estava por vir.
Por vir e se repetir, se repetir. Foi só no dia em que sumiram as cadeiras - um dia depois de sumirem as mesinhas de canto -, que por sua venerável racionalidade, os homens puderam vislumbrar o que o futuro lhes reservava: O apavorante mundo sem mobília e ferramenta.
E esse futuro não tardou a chegar. Um terror breve e absoluto é o que conta a história, da consciência do fato ao seu agonizante exaurimento. Emergiram conflitos de todos os tipos, massacres até, enquanto ainda existiu pólvora, lâmina e porrete, houve também o episódio da Bolha das Abotoaduras, o último objeto feito ou dominado pelo homem que restara àquela altura. Uma abotoadura valia a mão da filha de qualquer homem. Qualquer. E isso que já nem existiam camisas.
E assim, heroicamente, o homem - O Homem - se descobriu extremamente capaz de ser aquilo que ele próprio dobrara da natureza. Seria mobília, e seria tão bem quanto qualquer pedaço de madeira. Até melhor. Os sujeitos mais fofos davam sofás, pufes, divãs e poltronas de primeira linha. Os camaradas mais esguios e longilíneos podiam ser treinados para ficar perfeitamente imóveis, e então, como se pode esperar, tornavam-se mesas requintadíssimas e únicas.
O furor da mobília durou anos, enquanto um por um os móveis e utensílios da vida cotidiana iam sendo substituídos pelas pessoas adequadas, de tamanho e proporções adequadas. Havia tantos objetos a serem substituídos que a esta altura eram poucas as pessoas que tinham o privilégio de desempenhar o papel de gente neste ato.
Pouquíssimas.
Mas isso, é claro, durou até o dia de outra súbita reviravolta. Se passa que a realidade, por troça ou desatenção, esquecera de tomar outro bem do homem, tão apreciado quanto as abotoaduras. Ficaram assim desempregados os homens-despensa e meninos-jarro-de-biscoito. Fome, claro, desespero, claro, mas não por muito tempo, pois foi então que a mobília recomeçou a redesaparecer. Primeiro os sofás opulentos e espaçosos e não muito depois, mas não nesta ordem, os carrinhos de mão, os travesseiros, as telhas, as rodas de arado e até os ressequidos porta-chapéus. Toda homibiliária se iria assim, à milanesa e à moda do rei, até, é claro, se irem também as especiarias e as panelas – frigideiras, caldeiras, caldeirões, etc.
Ficou mesmo só o homem, não o mesmo do início, mas aquele que até aqui não fora homibilário nem bife à rolê, aqueles que puderam transitar livremente pelo valsante caos que se tornara a sociedade. Este mesmo que, nu e posto ao eterno relento, não abnegou de sua megalômana e vaidosa forma de viver, que não pode fazer outra coisa se não imaginar, criar, como no passado, que havia pavimentado o hora não-pavimentado e construído o hora não-construído, pôs-se a maquinear maravilhas a partir da única matéria prima disponível a eles: Eles próprios.
No entanto, estes mesmos avaliaram atenta e acertadamente que há um irremediável e deselegante vício na linha de produção de ser ao mesmo tempo, produto e consumidor. À luz dessa consideração, se faz necessário, para uma mais fiel representação destes acontecimentos, dissecar mais alongadamente a expressão “Eles próprios”, mesmo que de uma forma singela: Com a simples inclusão do advérbio “não” em literalmente qualquer lugar da expressão anterior. De forma que as expressões “Eles não-próprios”, “Não-eles próprios” ou “Eles próprios não”, exprimem com decisivo esclarecimento, clareza e precisão tanto a referida dicotomia quanto a solução mais natural.
Como bem se pode compreender e, embora nobremente investida do propósito sócio-heroico de dar prosseguimento à espécie humana, poucos são os homens sãos que por-se-iam voluntariamente em cardápio alheio.
Se é que a esta altura ainda há de se considerar a sanidade.
Pois, se haviam poucos dispostos a se voluntariar, havia tantos quanto se pode imaginar com fome. Fome. O que fez se porem frente a frente homem e homem, para brigar com os punhos até a morte - fosse ela imediata ou não. Os espólios eram os derrotados, fizeram-se alianças, travaram-se batalhas, batalhas, batalhas, sagrando-se vencedores aqueles que se intitulavam “Grande e Forte Aliança”. Formada por aqueles que mais tinham braços de cadeiras e pés de mesa estocados e, por isso mesmo, eram de fato grandes e gordos, fator determinante em combate, embora ambos e todos os lados pelejassem com ferocidade ímpar.
O nome da aliança, possivelmente alianças, derrotadas é hoje desconhecido, sendo todas as facções apelidadas genericamente de “Miúdos”.
Terminada a grande Guerra, fizeram-se grandes banquetes em memória aos heróis de guerra e cada homem tomou seu quinhão do prêmio e a esta altura aqueles que haviam se sagrado vitoriosos foram atravessados pela inquietude da bonança.
O que fazer agora? Como promover a paz e a bonança para os homens? Ou melhor, trazer paz e bonança para os homens ao mesmo tempo?
Sagazmente aperceberam que, diferentemente do dilema do ovo e da galinha, só o homem engendra homem e o mesmo se aplica aos Miúdos. A resposta para a iminente crise era a pecuária,  que em última análise era coisa que convenientemente os homens conhecem e dominam.
Verificou-se, no entanto, e logo no início, um inoportuno fato relativo à produtividade da homicultura. Acontece que, embora perfeitamente férteis, a específica matiz desta criação pode decidir se lhes é ou não conveniente procriar, o que para o homem certamente não o é.
A solução, embora simples, não poderia vir trajada senão de muito requinte. Instituíram um novo festival, uma nova ode à fartura, uma a ser comemorado todo ano na mesma época. Batizaram-no Segunda Páscoa. As celebrações consistiam em ruidosos banquetes de carne macia, seguida da cerimonial inseminação do gado, uma bela e estrondosa demonstração da força comunitária dos Grandes, quando toda a vizinhança se mobiliza para garantir a fertilização do máximo possível de gado de todas as criações.
Desta forma, os Fortes suprem de uma só vez dois reveses advindos da sua prévia constatação. Não significando, é claro que a homicultura como um todo dependesse desses rituais, pelo contrário, já haviam aprendido a processar a carne em outros subprodutos e a fecundação era provida ao longo de todo o ano pelo próprio proprietário, garantindo o fluxo constante das fazendas para o prato de cada homem.
Imaginar a abundância gerada por tal minuciosa genialidade é uma tarefa abstrativa de extrema dificuldade. Basta dizer que os homens bem sucederam em criar império a partir de uma única matéria prima, e se na fome ele fora inventivo, na opulência ele encontrou terreno fértil para explorar os limites da sua engenhosidade.
Nas pequenas coisas encontraram o sumo das grandes revoluções.
Refizeram os utensílios do dia a dia e para além deles, refizeram também espadas, lanças e porretes. Reinventaram bolas e bexigas, recriando assim, tanto o esporte quanto o espetáculo de sangue, a guerra de emoção e a emoção da guerra.
O Império Grande e Forte ergueu-se do impossível, e mirava ainda mais além, para as fronteiras de terra que ainda não haviam se submetido ao progresso, pois para todos lados havia terra em que não havia Império. Mais do que isso, eram povoados por selvagens – chamemo-los “Novos Miúdos”-, que estavam sempre a espreitar as riquezas trazidas pela inventividade do único povo realmente forte.
Isso sem falar que, estes selvagens, que sabiam fazer pouco mais do que fatiar carne e assá-la ao fogo, desperdiçavam dia após dia mais e mais o pouco – pouco - gado de seus rebanhos, já que não tinham a capacidade de aprender e dominar o ciclo de vida dos seus animais e bem aproveitar os bens provindos dele. Egoisticamente desperdiçavam o que era dos homens.
Partiu-se então para a guerra. Espadas contra punhos.
Os fortes, assaltando o rebanho Miúdo, capturavam-lhes as cabeças de gado e outras mais, celebrando a vitória à sua maneira, com banquetes e mais banquetes em homenagem aos heróis caídos e os inimigos vencidos. Daí a guerra virou caça, e não havia momento em que todos os exércitos imperiais estivessem estacionados, havia sempre uma expedição para se fazer, para levar a guerra e trazer o gado, encher a barriga dos soldados de banquetes e dos campesinos de orgulho, que o manifestavam sempre ao saudar a volta de mais um exército vitorioso com vivas, canções. Trovavam as façanhas no estrangeiro.
Cada Segunda Páscoa que passava, sua inventividade trazia aos fortes mais fartura, que trazia mais bens bem pensados, que lhes trazia a necessidade de ter mais gado, de levar mais guerra, de achar mais Míúdos, quão longe eles estivessem.

Ou perto. Perto era mais fácil.




terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Carta à Fernanda


Fernanda,

Fiquei muito grato de receber uma carta tua, agradeço a atenção e o carinho de ter compartilhado esta tua história de infância. Fiquei realmente emocionado. Peço licença para contar resolvi uma história da minha infância também. Não tenho certeza se gostarás, mas quis te contar esta história, desde o dia que lhe conheci.

Eu nasci e fui criado na Vila da Baixa. Lugar triste. Não era muito mais do que um punhado de palafitas pregadas sobre um manguezal. Um bom bocado, melhor dizendo, quase cem barracos à beira do rio. Eu vivia lá com minha mãe e meu irmão mais novo, não conheci meu pai, assim como tu. Minha mãe trabalhava costurando pra fora e ganhava com isso pouco mais do que o suficiente para dar de comer à mim e meu irmão. Como todos na Baixa, não tínhamos luz nem água encanada.

Como podes ver, a vida não era fácil. Longe disso.

Continuando a história, quando eu tinha uns quinze anos, minha mãe se encontrava vez e outra com um tal de Darci, um homem que já tinha morado na Baixa, mas agora morava na cidade. De uma forma ou de outra, todas as crianças conheciam o tal Darci. A bem da verdade, todas tinham medo dele por que ele dirigia o rabecão de uma funerária. Coisas do folclore.

Como ia dizendo, eu tinha mais ou menos quinze anos à época que, em uma de suas visitas, Darci sugeriu que eu fosse trabalhar com ele por uns trocados. Eu fui, é claro, poucos trocados então eram muita coisa e minha mãe ficou feliz que eu podia ajudar a pôr comida na mesa. Eu também fiquei, mas logo no início eu ainda tinha muito medo do seu namorado, mesmo que ele fosse o bicho papão das outras casas, não da minha. Foi assim que eu fui trabalhar na funerária.

Andava com Darci no rabecão para cima e para baixo por toda a cidade, o dia todo, todos os dias com exceção dos domingos. Nosso trabalho era ir até um lugar, que normalmente era uma casa ou um hospital, colocar o corpo no carro e levar para a funerária. Depois nós levaríamos o mesmo corpo para as capelas. Fazíamos isso umas dez vezes por dia, no máximo vinte. Pode parecer estranho, mas com quinze anos de idade eu não me importava muito com o ofício, com o fato de passar o dia com Darci e os defuntos. Não mesmo. Na verdade, com apenas quinze anos, eu já achava todas as outras crianças um bocado bobas por terem medo dessas coisas. Como Darci sempre dizia: “A morte vêm para todos”.

Mesmo assim, eu ainda era uma criança, e como todo menino pobre, eu amava jogar bola. Tivera até sonhos de ser um grande jogador, escapar daquela pobreza como tantos outros fizeram. Que garoto não sonhou este sonho? Muitos dos meninos que conheci na minha infância na Baixa acreditaram neste sonho por muito tempo. Eu não. Do alto da minha maturidade de quinze anos, eu já não me permitia sonhar assim, eu só gostava de jogar.

Acontece que por causa desta história de eu trabalhar na funerária com o Darci, as crianças passaram a não gostar de mim como antes, não sei se por medo ou por pura maldade. Primeiro começaram a me olhar estranho, fazendo comentários entre si, como que me cobrando a indelicadeza de estar ali. Logo depois eles já se negavam a ficar por perto, quem dera brincar comigo. Era só eu entrar no campinho e pedir para jogar que o jogo parava e os meninos se dispersavam por todos os lados.

Durante algum tempo eu ainda tentei questioná-los e eu voltava ao campinho. No fim só para ver os meninos me evitarem, irem embora e só voltarem quando eu tivesse desistido. Queria ter tido a presença de espírito de ter ocupado o tal campinho por horas a fio, para descobrir o que eles fariam. Mas eu era um menino, uma criança, mais maduro do que todos ali, é verdade, mas o máximo que podia fazer era sentir-me profundamente chateado, revoltado com a crendice daquelas crianças.

Num destes dias em que eu deixava o campinho, cabisbaixo e revoltado, fui interpelado por um velhinho. Um senhor já castigado pela gota e a cegueira, uma figura bem conhecida na Baixa, chamavam-no Seu Bida.

Seu Bida passava seus dias sentado à frente do seu barraco numa cadeira vermelha de mdeira, já toda lascada do tempo. O povo o conhecia como cachaceiro, mas só se fosse no passado, por que era difícil de acreditar que ele fosse capaz de suportar uma bebedeira sem morrer de súbito. A bem da verdade, tudo que Seu Bida fazia era um iminente risco a sua vida, tão gasto que o velho era. Mesmo garoto, não consegui evitar pensar que perto do Seu Bida, a maioria dos defuntos da funerária pareciam sadios. 

Isso eram coisas que todos sabiam.

O nome do Seu Bida, na verdade, era Constantino e durante toda sua vida ele morou na Baixa. Foi pescador, catador e faxineiro, foi também pai de cinco, avô de tantos outros. Dos seus filhos, só uma não fora para o sul tentar a sorte na cidade, uma moça jovem, cujo nome eu sinceramente não lembro, peço desculpas por isso. O fato é que eu nunca cheguei a conhecer a filha do Seu Bida. Conheci sim as duas filhas dela, de quem seu Bida estava sempre a cuidar, mesmo tão velho e enfermo. A mais velha tinha uns quatro anos no máximo, chamava-se Eliane, e a mais nova era um bebê de colo, que tinha uma marca de nascença roxa nas costas da mão. Estas coisas eu não sabia. Fui descobrindo só depois deste dia.

- Estes moleques são umas pestes - ele disse.

- Como disse? - Seu Bida falava baixo e ainda por cima, por já ter perdido todos os dentes, as palavras saíam cuspidas.

- São uns pestinhas estes teus amigos.

- Como o senhor sabe, se não enxerga?

- Eu os ouço, meu filho.

- E ouve o que, Seu Bida?

- Ouço estes moleques assustando uns aos outros com uma história de carro fúnebre.

- São uns bobos. A morte chega para todos.

- Não, meu filho - Disse ele, sacudindo a cabeça e ajeitando o bebê no colo - São bobos por acherem que alguém da Baixa vai parar em funerária.

Não respondi àquilo, eu não tinha entendido na época exatamente o que o ceguinho Seu Bida quis me dizer. Fiquei ali um tempo, sem dizer nada e depois eu fui embora. Mas só por aquele dia. Depois daquilo, eu voltei lá todos os domingos no resto daquele ano.Foi assim que fui conhecendo aquela figura que era o Seu Bida. 

Descobri que ele sabia um pouco sobre tudo, principalmente coisas triviais. Havia decorado as capitais de todos os estados e de uma considerável quantidade de países, alguns que nem existiam mais, e gostava de se exibir perguntando se eu também as sabia, tornando aquilo um jogo. Seu Bida sempre ganhava, mas com o tempo eu fui aprendendo.

A esta altura todos já sabiam que eu era amigo do velho Bida. Faziam graça e tudo mais. Gostaria muito de poder dizer que não me importava, mas eu era uma criança e aquelas provocações me acertaram em cheio e eu tinha cada vez mais vergonha de ir até a porta do barraco do Seu Bida e jogar o jogo das capitais. Comecei a não ir mais.

Um dia, numa pausa do trabalho, quando tomávamos um café na frente de uma banca de jornal, Darci comprou-me um almanaque de geografia, de tanto eu lhe perguntar, dia após dia, onde ficavam este e aquele lugar exótico. Eu li tudo, decorei tudo. Mas naquela semana eu não fui jogar com Seu Bida, nem naquela semana, nem na outra e nem na próxima. Tinha vergonha.

Num domingo, como que esquecendo a birra dos outros meninos, eu fui até o campinho tentar jogar uma partida. Em vão, todos saíram quando eu cheguei. No caminho de volta, passei pelo Seu Bida sentado em sua cadeira velha, com a criança aninhada em seus braços, como sempre.

- Esqueceu de mim, candango?

Parei, sorri pro velho cego e me sentei ao seu lado e ganhei uma partida dele pela primeira vez. No outro dia fui trabalhar e no outro domingo eu não fui jogar com Seu Bida, nem naquela semana, nem na outra e nem na próxima.


Atenciosamente,



Francisco Vieira.



P.S: Espero que entendas as perguntas indiscretas que lhe fiz quando nos conhecemos e que esta história de velho lhe seja útil no futuro.

P.P.S: Quando te perguntarem qual é a capital da Cochinchina, a resposta é Saigon.





domingo, 22 de dezembro de 2013

Por aí

Andamos soltos por aí,
com o vento a nos guiar,
nesta terra cercada pelas águas.
Já não tínhamos hora marcada,
nem pressa de voltar.
O tempo havia congelado
no sorriso,
no calor das mãos unidas,
no gosto do beijo,
no brilho dos olhos.
Voltamos à infância
de tardes sem compromisso,
num universo paralelo
totalmente nosso.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Já não me importa mais

Não importa mais correr contra o tempo,
andar na chuva e perder o ônibus.
Não importa mais os prazos apertados,
os compromissos inadiáveis e se é dia de semana.
Não importa mais que horas são,
se é tarde e se é repetido.
Não importa.
Além das vidas,
nada realmente importa...

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Boas Festas

Bom é quando você abstrai tudo,
simplesmente se torna observador e mero coadjuvante,
vivendo de sorriso em sorriso, de coisas boas,
abraços apertados e sem tristeza.
Seria perfeito, não?
Seria ideal talvez?
Ser indiferente.
Fugir ao que está na sua frente,
de mãos estendidas pedindo ajuda.
Mãos jovens, idosas, amigas, desconhecidas.
Mãos cinza, sem cor, nem vida,
puros fardos sociais,
feridas expostas de uma sociedade hipócrita,
desigual, egoísta, narcisista, mesquinha, alienada...
Que dorme em berço esplêndido...
O quanto nos iludimos com coisas fúteis, passageiras,
sendo a nossa única certeza nessa vida a própria morte.
Empilhamos coisas que não precisamos,
desejamos cada vez mais futilidades, confortos sem medida,
e esquecemos que o que se leva dessa vida é a vida que se leva.
Poderíamos nos preocupar com isso, refletir talvez?
Dar o primeiro passo, quebrar a indiferença já seria um grande avanço.
Enxergar que fora desse mundinho ideal, perfeito e feliz
que construímos existe um vazio.
Um vazio de cor, alegria, oportunidades,
um vazio de vida e de sorrisos,
um vazio de sentido por existir,
que não seja só sustentar o teto do consumismo desenfreado.
Quem sabe paramos de maquiar as pústulas?
Paramos de perfumar essa podridão?
Ah, quase esqueci...
Boas Festas!

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Dias de chuva

Lá fora chove sem parar, incansavelmente, o ritmo da chuva embala meus pensamentos,
neles você está sorrindo, mais encantadora que nunca.
Delicada como uma flor, como um lindo pássaro
que canta despreocupadamente,
assim a chuva sussurra à minha janela
o seu nome sem parar.
Apesar dos dias cinzentos tudo adquiriu mais cor,
mais vida, a sagrada monotonia se esvaiu no vento,
se dissipou nas águas.
Agora um simples caminhar se tornou uma aventura,
um motivo de alegria, pelo simples talvez de te ver.
Alguns reclamam de tanta chuva, porém eu agradeço,
pois foi num dia de chuva que te conheci,
que te vi pela primeira vez
sem ser apenas um admirador secreto.
Então peço a Deus que proporcione mais dias de chuva,
mais dias maravilhosos de muita chuva.

domingo, 8 de setembro de 2013

O Rei da noite e os Senhores da Sombra

Exercia com perfeição seu personagem durante o dia, enquanto os seres cruéis reinam
e as leis desconexas imperam.
Ansiava pelo pôr do sol,
pelo inicio de seu reino,

o silêncio alheio.
Rolava na cama
aguardando o momento certo
de escapulir dos lençóis
e correr para seus domínios.
Seus súditos o aguardavam
fiéis, verdadeiros, furtivos.
Caminhava sem rumo definido
ia por onde seus pés o guiavam
ao som de seus passos,
eternos companheiros,
ecos ritmados da marcha real.
As ruas estavam repletas
de ventos, impregnada de damas da noite,
alguns súditos os seguiam com o olhar felino
outros se afastavam com o rabo entre as pernas,
abandonavam seus banquetes com medo.
Seguiu até os limites de seu reino,
uma praça, com uma enorme fonte ao meio.
Esta pertencia a outros,
pertencia aos senhores da Sombra,
nobres magos que usavam capas,
roupas mágicas que os tornavam invisíveis
mas seus poderes iam embora com a luz do Sol.
Conhecia a alguns e vice versa,
sentou com eles a beira da lareira mais próxima.
Conversaram sobre os mistérios das estrelas,
os segredos dos animais,
e sobre como livrar o reino dos seres do mal,
porém, como sempre,
nunca conseguiam chegar a uma conclusão.
Um galo próximo anunciou o fim da reunião,
se despediram e voltaram para seus castelos,
não poderiam se atrasar,
pois até para seres invisíveis
o reino dos homens era perigoso,
cruel e ingrato.

domingo, 11 de agosto de 2013

Neuroses

“Eu disse não, falei mil vezes que era perigoso tentar.
Expliquei, incansavelmente antes de dormir, que não adiantava,
nem com esses olhos gelados que penetram minha alma.
Já pedi pra não usar esse sorriso enquanto estiver falando com você.
Só pra avisar, não quero falar mais sobre isso.
Vai ser melhor assim, acredita em mim.
Aliás, não quer dizer que não continuo seu amigo.
É óbvio que você é importante pra mim, me preocupo contigo.
Tudo bem pra você?
Te amo.”
Quase posso escutar ela falar.
Caí na real, não tenho chance...

terça-feira, 30 de julho de 2013

Honra teu pai


Para o resto do mundo, era uma manhã qualquer no ano de 1979. Physical Graffiti, do Led Zeppelin havia estreado há apenas algumas semanas no Brasil, e o estilo de Jimi Hendrix ainda era quase uma novidade por aqui. Tudo chegava mais tarde nessas terras. Apesar disso, a vida era boa para a maior parte da população. Mas não para eles. Não naquela manhã.

João era um garoto de quatro ou cinco anos de idade. Classe média, vivia em um bom bairro de Porto Alegre, sua família nunca passara por grandes dificuldades. Algo mimado, ele sempre ganhava tudo que pedia aos pais. Uma das maiores preocupações que ele tinha era chegar em casa cedo o suficiente para não perder nenhum episódio das telenovelas. Não que ele fosse exatamente o maior dos noveleiros. Ele só gostava de ver as imagens se mexendo dentro daqueles tubos; afinal de contas, era um bom passatempo, já que sua mãe não o deixava sair de casa depois das seis da tarde, nem mesmo para ir na casa de um amigo.

E, claro, no topo da lista havia Louise, a garota da escolinha de João. Desde que ele a vira pela primeira vez, pele clara e longos cabelos negros  - quase uma antinomia, mas para ele fazia todo o sentido -, o garoto se sentia nas nuvens toda vez que ia para a escola. O que era para ser um dever “mono tom”, chato, quase que religioso, se transformara exatamente no seu oposto. Ele já tentara chamar a atenção da sua infantil atração de quase todas as maneiras possíveis para alguém de sua idade. Já havia levado até mesmo flores (cortesia do avô, que sempre o apoiava naquela investida), no que mais tarde se tornaria uma de suas melhores e mais aleatórias lembranças, só sendo superada por aquele inocente beijo na bochecha dado por ela uma vez naquela tarde de Janeiro.

O sentimento era recíproco do outro lado. O coração da morena dava semipulos de alegria quando ela via o garotinho gordo, estranho e meio tímido chegar todo dia, sempre com algo diferente em mãos, somente para surpreendê-la. Passava por problemas em casa, os pais, pelo que entendia, estavam quase se separando, não sabia com qual dos dois ficaria, e João, do alto de seu pouco mais de um metro, era o que mais conseguia lhe alegrar.

Mas esses dias já estavam no fim. O último dia da escola havia sido na semana passada, e a família de Louise já aprontara as malas, iam para uma outra cidade, a qual João não conseguia dizer direito o nome, mas sabia que era muito longe, e nunca mais a veria. Do lado da Brasília amarela, os dois pirralhos se despediam, em um dos domingos mais quentes do ano. O pai dela pedia pressa, do contrário não chegariam a tempo, mas nenhuma das crianças se importava muito. Não que eles soubessem o que falar um para o outro. Nunca souberam, e a importância daquele momento não ajudava em muito.

Após ficarem alguns minutos juntos, os dois ruborizados de vergonha e calor, ela finalmente deu um beijo de despedida nele e, enfim, abriu a porta do carro do pai. Olhou para trás e viu João com a mão onde o havia beijado (mais tarde, ele avisaria aos pais que nunca mais iria lavar aquela bochecha; ele conseguiu manter a promessa por exatas duas horas, tamanha a insistência da mãe), e ambos sorriram.

~


~

O ano de 2017 era o mais quente da década, e aquela noite de setembro, dia 19, não era diferente. Marcelo não gostava muito de frio, mas até para ele, que faria aniversário no dia seguinte, o clima já passara dos limites do aceitável.

No entanto, tentou não ligar muito para isso, afinal, dali a alguns minutos, finalmente seria maior de idade e, juntamente com seus 18 anos, se tornaria homem. Nunca teve grandes problemas para ficar com as garotas da escola e do curso pré-ENEM  - embora não fosse exatamente do tipo “pegador” -, mas, na hora “H”, sempre algo o impedia de seguir em frente, no mais das vezes uma desculpa esfarrapada inventada no ato. Naquela madrugada, entretanto, ele sabia que sua sorte mudaria.

Já passava da meia noite quando o grupo de amigos de Marcelo finalmente chegara na boate Caverna Vermelha, no Punto que o aniversariante “roubara” do pai (essa era a versão que contou aos amigos; na verdade, os pais haviam emprestado o carro para ele, como parte do presente do filho). O lugar era famoso por ser um dos melhores puteiros da região. Um garoto do grupo, Alexandre, o mais descarado, foi falar alguma coisa com a atendente, e deixou os outros ali, perto da porta.

As mãos de Marcelo tremiam. Ele já tentara se acalmar, tomando um remédio que um de seus amigos o emprestara, mas de nada ajudara com o nervosismo. Para tentar ganhar confiança, ele tentou se lembrar do que vira no dia passado, naqueles filmes que baixara da Internet. Foi aí que viu uma linda mulher passar por perto e olhar para ele de um jeito provocante, como que o chamando. Ele não era idiota, sabia do que aquilo que se tratava. Era o presente de aniversário que seus amigos haviam dividido entre si.

Então, adentrou no quarto junto com a morena. Seu coração pulava pela boca. De fato, seria a noite que tudo aconteceria e tiraria aquele peso das costas. “Até que enfim”, pensou. A prostituta de longos cabelos negros o olhou de cima abaixo, soltou um risinho e deu um beijo na bochecha dele. Mecanicamente, tirou toda a roupa e começou a despir Marcelo, quando este, ainda nervoso, perguntou qual era o nome da mulher que tiraria sua virgindade.


Louise”, ela respondeu.




Um salve pra Derpina de cabelos azuis, que deu a ideia do nome da personagem feminina e revisou o texto.



segunda-feira, 29 de julho de 2013

Mar De Cinzas


Rumavam pelo deserto com o sol investindo impiedosamente contra suas costas e o vento árduo trazendo poeira a seus olhos, uma chicotada após a outra. Na areia acinzentada que fervia sob o sol do meio-dia, eles arrastavam os pés, se esforçando para que uma vez após a outra se mantivessem em pé. Atrás deles se formava um rastro sinuoso, fruto do rastejar custoso que era seu caminhar. Mas tão logo chegava o vento, levava consigo o tênue rastro dos seus pés e por isso, por mais que andassem deserto afora, nunca sabiam ao certo de onde haviam vindo e mesmo se por algum súbito instante se recordassem, o vento lhes estendia o braço e varria a memória.


Neste deserto, todos sabiam, os homens não simplesmente morriam. Por anos a fio, as cinzas os enfraquecia, lhes golpeando com um peso obsceno, para que no fim, o Sol lhes findasse, depedasando sua existência além da morte. Com os corpos cobertos de cinza e suor, eles endureciam, assando sob o sol. Eles próprios se tornando cinzas.. Chegava um dia que o impacto dos próprios pés ao tocar o chão bastava pra que o corpo se rachasse, desmoronasse em cinzas, sendo abraçado e levado pelo vento mesmo antes de tocar o chão. Para sempre desta vez.


Mas não todos. Alguns inexplicavelmente não se rachavam, acabando por se tornar uma espécie de pedra. Uma pedra cinza e opaca. Um túmulo que continha não só aquele homem que por desventura não se desfizera em milhões, mas também os de incontáveis desafortunados que repousavam nas dunas, na brisa, sob os pés e sobre a pele dos prisioneiros errantes que ainda se arrastavam pelo deserto. Todos eles estavam solidificados naquele rosto, grão por grão.


Muitos vieram e se foram sem nunca ter visto estes homens-pedra, mas eles habitavam seus pensamentos. Os que rumavam no deserto cinza, sem muitas vezes saber por que, quando viam sua carne tomar aquela cor, passavam a desejar não mais uma sombra e um pouco de água. Desejavam simplesmente, que ao fim de tudo aquilo - se é que havia um final – seu corpo não se esfarelasse ao vento, que suas memórias não fossem partidas em milhões e condenadas a vagar pra sempre sem cor e sem história e que pudessem descansar eternamente como eternamente pedra. Temiam acima de tudo jazer como cinzas incógnitas.







quarta-feira, 10 de julho de 2013

Branco de Vazio


   O dia em que tudo mudou foi quando pendurei aquele quadro na parede. Ele era branco, tão branco que parecia emitir a própria luz, mas... não. Era pior que isso, ele era vazio. Eu o preguei à meia altura na frente da minha cama, onde eu podia vê-lo sempre. E eu fazia isso. Ficava parado, estático, olhando pra ele e quanto mais eu olhava mais eu tinha certeza que, na verdade, era ele que me olhava, do fundo daquele seu vazio.

   Aquilo me perturbava. Muito. Na verdade já nem sabia se era eu mesmo que tinha o colocado ali ou se ele sempre estivera ali. Mas o que importava era que ele estava ali, estava ali e precisava de mim. Eu sabia o que tinha que fazer, mas não conseguia. De todas as tintas, canetas e lapises que eu tenho, nenhum parecia digno, não ainda. Passei a tocá-lo, tentar entender o que ele queria de mim, mas era difícil, difícil percebe-la sempre vazia, esperando que eu... Eu tinha que fazer mesmo? Já não sabia.

   Então um dia eu simplesmente o tirei de lá, peguei um lápis quase sem ponta e rabisquei qualquer coisa. Um rosto. Sem olhos, sem sobrancelhas, sem expressão. Mas era algo. Aquele branco já não parecia brilhar em desafio na minha direção. Então pude dormir tranquilo aquela noite.

   Mas foi daí em diante que comecei a ver branco em tudo. Em todas as folhas de caderno, páginas de livros. Tudo era para ser colorido, escrito e riscado. O branco, digo, o vazio é uma ofensa, então eu ando sempre munido nem que fosse de um lápis. Desfazer o vazio é indescritível, é simplesmente... viciante. E quanto maior o vazio, maior é a vontade de quebrá-lo. Eu comecei a vê-lo nas paredes, nos muros... nas pessoas. Por que no fim de toda essa confusão eu acabei descobrindo que na verdade sou eu que preciso do vazio e não o contrário. E... sei lá, se quiserem me achar, vou estar escrevendo alguma, desenhando ou rabiscando alguma coisa em algum vazio qualquer.




terça-feira, 25 de junho de 2013

Sem Título #5


Trazia até então
O próprio peito aberto
Roído de raiva e remorso
Mergulhados em memória
E perturbado pela paz
Da distante concretude

Tão partido, tão roído
Mergulhado e perturbado
Que nem mesmo o notara
Dormindo onde o escondera