domingo, 7 de outubro de 2012

Katyusha



Quantas pessoas sabem do que se trata a foto ao lado? Quantas conhecem os atores e os fatos que ela esconde? Menos do que deveriam, com certeza.

Muito bem, o palco é a Grande Guerra Patriótica, cujas batalhas foram, sem dúvida, alguns dos conflitos armados mais sangrentos e destrutivos da história da humanidade. A Alemanha invadiu a União Soviética no verão de 41, no que ficou conhecido como operação Barbarossa. Avançando e devastando tudo por que passava, secando todos os recursos que o desesperado exército resistente deixava para trás, recuando com os germânicos sempre em seu encalço.

Os alemães eram os mais bem treinados e os mais bem equipados, possuindo também ao seu lado o elevado moral que as consecutivas vitórias lhes proporcionavam. A realidade dos invadidos era outra. Escassez é a palavra que melhor os definia. Armamento, munição, comida... tudo, não eram suficientes. Além disso, o grosso do exército era formado por jovens interioranos, em sua maioria agricultores, que muitas vezes recebiam pouca ou nenhuma instrução antes de cair no front.

A Grande Guerra Patriótica é nada menos o que nós ocidentais chamamos de 2ª Guerra Mundial. É assim que os soviéticos a chamam. Não lhes tiro a razão, o preço pago pelo povo soviético foi altíssimo. Mas, o que aconteceu? Sabemos que foi a URSS que deu o golpe final no Reich de Hitler, marchando até Berlim. Eis a reviravolta. Desponta nosso personagem.

Acontece que Hitler perdeu sua guerra. A Blitzkrieg alemã não aconteceu e a luta se entendeu até o limite da sanidade humana: O frio do inverno russo.

A imagem na foto é de veículos ZIL-157 adaptados para disparar múltiplos foguetes BM-8, BM-13 ou BM-31. Foram de importância vital no rechaço dos alemães e talvez mais ainda nos anos que se seguiram, na derrota alemã. Muito bem. Acontece que Boyevaya Mashina – BM – é só o nome militar destes foguetes, eles ficaram conhecidos mundialmente como Katyusha.

Katyusha? Pois bem, não coincidentemente, em 1938 foi composta uma música que se tornou um hino de guerra. O nome da música... Katyusha. A música fala de um jovem casal separado pela guerra, sobre uma moça que espera seu amor voltar de uma fronteira distante. As tropas apelidaram sua artilharia em homenagem  à esta personagem.

E aí está para mim o grande sentido poético de toda esta história. Katyusha, o foguete, e Katyusha, a donzela se confundem se tornando uma só, uma vez que os russos amargaram nesta guerra os piores sofrimentos. As mulheres viram suas casas serem tombadas e saqueadas e deram adeus a seus filhos e seus maridos. Quando as Katyushas deslizam das esteiras de seus suportes móveis e voam em direção aos alemães, são as esposas e mulheres soviéticas retaliando seu flagelo, pondo tudo a baixo e liderando o avanço das tropas. Quase mitológico.

Mas do outro lado da fronteira polonesa, as mães, esposas e filhos alemães estão passando pela exata mesma impotência revoltosa. A guerra é capaz de provocar todas as emoções em um ser humano, das piores dores de perda e culpa, passando pelos assombros da banalização da vida e as alegrias dos reencontros. Coisas terríveis acontecem em guerras, coisas das quais todos deveriam acreditar impossíveis, permanecer inocentes.

E a guerra é assim, nos coloca frente aos piores pesadelos, e ela prova-se determinada em realizá-los, mascarando-lhes devidamente. O homem que vai à guerra não é o mesmo que retorna. De uma vez só, o jovem camponês soviético, o pai de família alemão e o civil, seja ele da nação que for, presenciarão os maiores horrores da vida e receberão a responsabilidade de ter a consciência que tais coisas sequer existem e assim amadurecem todos de imediato, homens, mulheres, crianças e idosos.

A guerra encurta a vida não só por que mata, mas por que sintetiza todos os sentimentos que não deviam nos ser impostos assim. O soldado sem guerra, lê-se todos nós, levamos da vida uma surra, sempre, até o fim, mas é de golpe em golpe que levantamos a guarda e aprendemos a antecipar e lidar com eles, esquivar é inútil. Mas a guerra é um adversário imbatível. Por detrás da uma mira de ferro está a vida de uma pessoa, que tomba com o recuar de um gatilho. Duas pessoas que se conhecem e se despedem em um só movimento, dois homens mortos, um deitado e o outro de pé. Não sei se me entendem, mas o homem que vai à guerra é desde já um homem morto, seu único objetivo é garantir que com ele se vão o maior número de tangos, de inimigos. A vida é também uma guerra, mas a guerra não é parte da vida.



Pra quem nunca ouviu Katyusha: