Quantas pessoas
sabem do que se trata a foto ao lado? Quantas conhecem os atores e os fatos que
ela esconde? Menos do que deveriam, com certeza.
Muito bem, o
palco é a Grande Guerra Patriótica, cujas batalhas foram, sem dúvida, alguns
dos conflitos armados mais sangrentos e destrutivos da história da humanidade.
A Alemanha invadiu a União Soviética no verão de 41, no que ficou conhecido
como operação Barbarossa. Avançando e devastando tudo por que passava, secando
todos os recursos que o desesperado exército resistente deixava para trás,
recuando com os germânicos sempre em seu encalço.
Os alemães
eram os mais bem treinados e os mais bem equipados, possuindo também ao seu
lado o elevado moral que as consecutivas vitórias lhes proporcionavam. A
realidade dos invadidos era outra. Escassez é a palavra que melhor os definia.
Armamento, munição, comida... tudo, não eram suficientes. Além disso, o grosso
do exército era formado por jovens interioranos, em sua maioria agricultores,
que muitas vezes recebiam pouca ou nenhuma instrução antes de cair no front.
A Grande
Guerra Patriótica é nada menos o que nós ocidentais chamamos de 2ª Guerra
Mundial. É assim que os soviéticos a chamam. Não lhes tiro a razão, o preço
pago pelo povo soviético foi altíssimo. Mas, o que aconteceu? Sabemos que foi a
URSS que deu o golpe final no Reich de Hitler, marchando até Berlim. Eis a
reviravolta. Desponta nosso personagem.
Acontece que
Hitler perdeu sua guerra. A Blitzkrieg
alemã não aconteceu e a luta se entendeu até o limite da sanidade humana: O
frio do inverno russo.
A imagem na
foto é de veículos ZIL-157 adaptados para disparar múltiplos foguetes BM-8,
BM-13 ou BM-31. Foram de importância vital no rechaço dos alemães e talvez mais
ainda nos anos que se seguiram, na derrota alemã. Muito bem. Acontece que Boyevaya Mashina – BM – é só o nome
militar destes foguetes, eles ficaram conhecidos mundialmente como Katyusha.
Katyusha? Pois bem, não coincidentemente, em 1938 foi composta uma música que se tornou um hino de guerra. O nome
da música... Katyusha. A música fala de um jovem casal separado pela guerra,
sobre uma moça que espera seu amor voltar de uma fronteira distante. As tropas apelidaram sua artilharia em homenagem à esta personagem.
E aí está para
mim o grande sentido poético de toda esta história. Katyusha, o foguete, e
Katyusha, a donzela se confundem se tornando uma só, uma vez que os russos
amargaram nesta guerra os piores sofrimentos. As mulheres viram suas casas
serem tombadas e saqueadas e deram adeus a seus filhos e seus maridos. Quando
as Katyushas deslizam das esteiras de seus suportes móveis e voam em direção
aos alemães, são as esposas e mulheres soviéticas retaliando seu flagelo, pondo
tudo a baixo e liderando o avanço das tropas. Quase mitológico.
Mas do outro lado da fronteira polonesa, as mães, esposas e filhos alemães estão passando pela exata mesma impotência revoltosa. A guerra é capaz de
provocar todas as emoções em um ser humano, das piores dores de perda e culpa,
passando pelos assombros da banalização da vida e as alegrias dos reencontros.
Coisas terríveis acontecem em guerras, coisas das quais todos deveriam
acreditar impossíveis, permanecer inocentes.
E a guerra é assim, nos coloca frente aos piores pesadelos,
e ela prova-se determinada em realizá-los, mascarando-lhes devidamente. O homem
que vai à guerra não é o mesmo que retorna. De uma vez só, o jovem camponês
soviético, o pai de família alemão e o civil, seja ele da nação que for,
presenciarão os maiores horrores da vida e receberão a responsabilidade de ter
a consciência que tais coisas sequer existem e assim amadurecem todos de
imediato, homens, mulheres, crianças e idosos.
A guerra encurta a vida não só por que mata, mas por que
sintetiza todos os sentimentos que não deviam nos ser impostos assim. O soldado
sem guerra, lê-se todos nós, levamos da vida uma surra, sempre, até o fim, mas é
de golpe em golpe que levantamos a guarda e aprendemos a antecipar e lidar com
eles, esquivar é inútil. Mas a guerra é um adversário imbatível. Por detrás da
uma mira de ferro está a vida de uma pessoa, que tomba com o recuar de um
gatilho. Duas pessoas que se conhecem e se despedem em um só movimento, dois
homens mortos, um deitado e o outro de pé. Não sei se me entendem, mas o homem
que vai à guerra é desde já um homem morto, seu único objetivo é garantir que
com ele se vão o maior número de tangos, de inimigos. A vida é também uma
guerra, mas a guerra não é parte da vida.
Pra quem nunca ouviu Katyusha: