Fernanda,
Fiquei muito grato de receber uma carta tua, agradeço a atenção e o carinho de ter compartilhado esta tua história de infância. Fiquei realmente emocionado. Peço licença para contar resolvi uma história da minha infância também. Não tenho certeza se gostarás, mas quis te contar esta história, desde o dia que lhe conheci.
Eu nasci e fui criado na Vila da Baixa. Lugar triste. Não era muito mais do que um punhado de palafitas pregadas sobre um manguezal. Um bom bocado, melhor dizendo, quase cem barracos à beira do rio. Eu vivia lá com minha mãe e meu irmão mais novo, não conheci meu pai, assim como tu. Minha mãe trabalhava costurando pra fora e ganhava com isso pouco mais do que o suficiente para dar de comer à mim e meu irmão. Como todos na Baixa, não tínhamos luz nem água encanada.
Como podes ver, a vida não era fácil. Longe disso.
Continuando a história, quando eu tinha uns quinze anos, minha mãe se encontrava vez e outra com um tal de Darci, um homem que já tinha morado na Baixa, mas agora morava na cidade. De uma forma ou de outra, todas as crianças conheciam o tal Darci. A bem da verdade, todas tinham medo dele por que ele dirigia o rabecão de uma funerária. Coisas do folclore.
Como ia dizendo, eu tinha mais ou menos quinze anos à época que, em uma de suas visitas, Darci sugeriu que eu fosse trabalhar com ele por uns trocados. Eu fui, é claro, poucos trocados então eram muita coisa e minha mãe ficou feliz que eu podia ajudar a pôr comida na mesa. Eu também fiquei, mas logo no início eu ainda tinha muito medo do seu namorado, mesmo que ele fosse o bicho papão das outras casas, não da minha. Foi assim que eu fui trabalhar na funerária.
Andava com Darci no rabecão para cima e para baixo por toda a cidade, o dia todo, todos os dias com exceção dos domingos. Nosso trabalho era ir até um lugar, que normalmente era uma casa ou um hospital, colocar o corpo no carro e levar para a funerária. Depois nós levaríamos o mesmo corpo para as capelas. Fazíamos isso umas dez vezes por dia, no máximo vinte. Pode parecer estranho, mas com quinze anos de idade eu não me importava muito com o ofício, com o fato de passar o dia com Darci e os defuntos. Não mesmo. Na verdade, com apenas quinze anos, eu já achava todas as outras crianças um bocado bobas por terem medo dessas coisas. Como Darci sempre dizia: “A morte vêm para todos”.
Mesmo assim, eu ainda era uma criança, e como todo menino pobre, eu amava jogar bola. Tivera até sonhos de ser um grande jogador, escapar daquela pobreza como tantos outros fizeram. Que garoto não sonhou este sonho? Muitos dos meninos que conheci na minha infância na Baixa acreditaram neste sonho por muito tempo. Eu não. Do alto da minha maturidade de quinze anos, eu já não me permitia sonhar assim, eu só gostava de jogar.
Acontece que por causa desta história de eu trabalhar na funerária com o Darci, as crianças passaram a não gostar de mim como antes, não sei se por medo ou por pura maldade. Primeiro começaram a me olhar estranho, fazendo comentários entre si, como que me cobrando a indelicadeza de estar ali. Logo depois eles já se negavam a ficar por perto, quem dera brincar comigo. Era só eu entrar no campinho e pedir para jogar que o jogo parava e os meninos se dispersavam por todos os lados.
Durante algum tempo eu ainda tentei questioná-los e eu voltava ao campinho. No fim só para ver os meninos me evitarem, irem embora e só voltarem quando eu tivesse desistido. Queria ter tido a presença de espírito de ter ocupado o tal campinho por horas a fio, para descobrir o que eles fariam. Mas eu era um menino, uma criança, mais maduro do que todos ali, é verdade, mas o máximo que podia fazer era sentir-me profundamente chateado, revoltado com a crendice daquelas crianças.
Num destes dias em que eu deixava o campinho, cabisbaixo e revoltado, fui interpelado por um velhinho. Um senhor já castigado pela gota e a cegueira, uma figura bem conhecida na Baixa, chamavam-no Seu Bida.
Seu Bida passava seus dias sentado à frente do seu barraco numa cadeira vermelha de mdeira, já toda lascada do tempo. O povo o conhecia como cachaceiro, mas só se fosse no passado, por que era difícil de acreditar que ele fosse capaz de suportar uma bebedeira sem morrer de súbito. A bem da verdade, tudo que Seu Bida fazia era um iminente risco a sua vida, tão gasto que o velho era. Mesmo garoto, não consegui evitar pensar que perto do Seu Bida, a maioria dos defuntos da funerária pareciam sadios.
Isso eram coisas que todos sabiam.
O nome do Seu Bida, na verdade, era Constantino e durante toda sua vida ele morou na Baixa. Foi pescador, catador e faxineiro, foi também pai de cinco, avô de tantos outros. Dos seus filhos, só uma não fora para o sul tentar a sorte na cidade, uma moça jovem, cujo nome eu sinceramente não lembro, peço desculpas por isso. O fato é que eu nunca cheguei a conhecer a filha do Seu Bida. Conheci sim as duas filhas dela, de quem seu Bida estava sempre a cuidar, mesmo tão velho e enfermo. A mais velha tinha uns quatro anos no máximo, chamava-se Eliane, e a mais nova era um bebê de colo, que tinha uma marca de nascença roxa nas costas da mão. Estas coisas eu não sabia. Fui descobrindo só depois deste dia.
- Estes moleques são umas pestes - ele disse.
- Como disse? - Seu Bida falava baixo e ainda por cima, por já ter perdido todos os dentes, as palavras saíam cuspidas.
- São uns pestinhas estes teus amigos.
- Como o senhor sabe, se não enxerga?
- Eu os ouço, meu filho.
- E ouve o que, Seu Bida?
- Ouço estes moleques assustando uns aos outros com uma história de carro fúnebre.
- São uns bobos. A morte chega para todos.
- Não, meu filho - Disse ele, sacudindo a cabeça e ajeitando o bebê no colo - São bobos por acherem que alguém da Baixa vai parar em funerária.
Não respondi àquilo, eu não tinha entendido na época exatamente o que o ceguinho Seu Bida quis me dizer. Fiquei ali um tempo, sem dizer nada e depois eu fui embora. Mas só por aquele dia. Depois daquilo, eu voltei lá todos os domingos no resto daquele ano.Foi assim que fui conhecendo aquela figura que era o Seu Bida.
Descobri que ele sabia um pouco sobre tudo, principalmente coisas triviais. Havia decorado as capitais de todos os estados e de uma considerável quantidade de países, alguns que nem existiam mais, e gostava de se exibir perguntando se eu também as sabia, tornando aquilo um jogo. Seu Bida sempre ganhava, mas com o tempo eu fui aprendendo.
A esta altura todos já sabiam que eu era amigo do velho Bida. Faziam graça e tudo mais. Gostaria muito de poder dizer que não me importava, mas eu era uma criança e aquelas provocações me acertaram em cheio e eu tinha cada vez mais vergonha de ir até a porta do barraco do Seu Bida e jogar o jogo das capitais. Comecei a não ir mais.
Um dia, numa pausa do trabalho, quando tomávamos um café na frente de uma banca de jornal, Darci comprou-me um almanaque de geografia, de tanto eu lhe perguntar, dia após dia, onde ficavam este e aquele lugar exótico. Eu li tudo, decorei tudo. Mas naquela semana eu não fui jogar com Seu Bida, nem naquela semana, nem na outra e nem na próxima. Tinha vergonha.
Num domingo, como que esquecendo a birra dos outros meninos, eu fui até o campinho tentar jogar uma partida. Em vão, todos saíram quando eu cheguei. No caminho de volta, passei pelo Seu Bida sentado em sua cadeira velha, com a criança aninhada em seus braços, como sempre.
- Esqueceu de mim, candango?
Parei, sorri pro velho cego e me sentei ao seu lado e ganhei uma partida dele pela primeira vez. No outro dia fui trabalhar e no outro domingo eu não fui jogar com Seu Bida, nem naquela semana, nem na outra e nem na próxima.
Atenciosamente,
Francisco Vieira.
P.S: Espero que entendas as perguntas indiscretas que lhe fiz quando nos conhecemos e que esta história de velho lhe seja útil no futuro.
P.P.S: Quando te perguntarem qual é a capital da Cochinchina, a resposta é Saigon.