Meu pai tem, desde que me conheço por gente, um gosto pelas músicas gauchescas. Vez ou outra escuto estes índios velhos e calejados também, um destes me inspirou a escrever hoje. Dante Ramon Ledesma, que é um artista formidável nascido na Argentina e radicado no Rio Grande do Sul - tendo vivido, inclusive, aqui em Rio Grande -, canta em "Latinamente Só" uma realidade muitas vezes distratada. "Não me basta sonhar ser pássaro e acordar assoviando misérias", sendo, para mim o verso mais impactante.
Realmente, Don Ramon, não basta. Já falei aqui, as pessoas preferem a ignorância, é mais fácil lidar com ela. Então elas compram os mais belos pássaros, vindos da fabriqueta mais vil, feitos de plástico e numerados em série. Como um cardume seguindo um caminho sinuoso, desviando-se, sendo conduzidos pelo da frente e imitando o do lado.Usa-se o termo encaixar. "Aquele ali não se encaixa". Como se fôssemos peças do mesmo brinquedo idiota que só faz um movimento e tem uma ou duas falas gravadas.
Em Hedonismo, questionei quem por livre vontade escolheria a ignorância, pois realmente me foge à compreensão o porquê de se colocar em uma esteira e aceitar ser jogado de um lado para o outro ao bem entender. Não quero dizer que exista uma única esteira, pelo contrário. Por isso existem quero-queros, sabiás e bem-te-vis, azuis, vermelhos e verdes. Nenhum deles respira e canta de fato, mas foda-se, que belos pássaros, até parecem reais, melhor do que isso, são os únicos que se conhece. Pra quem o quer, são reais