domingo, 7 de abril de 2013

Sorte



Apressado, dobrava na última rua antes de voltar ao trabalho quando esbarrou numa multidão. "Vou me atrasar", pensou. Desce do carro, anda até os curiosos e cutuca o senhor à sua frente.

- Oi, o que aconteceu aqui?
- Não sei, parece que um cara pulou lá de cima
- Morreu, é?
- Acho que sim, colocaram uma lona por cima - apontou o outro homem, para o meio da confusão, mas não havia como ver.
- E isso é hora pra se matar, bem no horário comercial. Não tenho como passar
- Disseram que os homens já tão chegando, pra levar o defunto.
- Que levem mesmo, falta de educação se matar uma hora dessas, só pra chamar atenção - Já estava irritado, os ponteiros corriam em seu pulso, e o defunto lá, trancando seu caminho.

Minutos, muitos minutos. Já estava atrasado. Maldito, três vezes maldito esse presunto. A polícia chegou, quando o perito passou por ele, agarrou seu braço.

- Isso é um absurdo! Já passei mais tempo com esse defunto hoje do que com a minha esposa. Preciso trabalhar!
- Preciso trabalhar também - disse o perio se desvencilhando pra tratar do morto.

Em dois tempos encaixotaram o sujeito e levaram. "Finalmente", pensou. Os curiosos se despersaram e pôde chegar ao seu escritório, atrasado, é claro, mas chegou. Lá, não demorou muito a se sentir mal pelo que havia dito ao perito, que, afinal de tudo, era verdade. Via tão pouco sua amada, que já nem sabia se podia chamá-la assim. Decidiu mudar, de uma vez por todas. Levantou, pegou seu casaco e saiu.

Ligou para o restaurante e reservou uma mesa. "Como ela gosta de comida japonesa, vai adorar". Passou na perfumaria, desenbolsou uma grana e comprou um perfume, "O que ela ama". Já ia pra casa quando viu que tinha estacionado em frente à uma floricultura. "Que sorte", pensou. Passou algum tempo escolhendo entre rosas, petúnias, margaridas e tulipas. Não conseguiu, levou todas. Dirigiu até sua casa com um sorriso no rosto.

Subiu as escadas, de tão ansioso que estava. Sem fôlego, girou a chave na porta, entrou.

- Amor! Cheguei mais cedo.

Nada. Nem uma resposta. Só um barulho estranho no quarto. "Que será isso?". Andou até lá, com o melhor sorriso que podia vesir enfeitando seu rosto. "Vozes, são vozes? Abriu a porta do quarto. Lá no canto, parecendo gemer, era a televisão, com o sinal voltando e caindo.

- Querida!

Nada. Vasculhou a casa, mas sem sucesso, estava vazia. "Deve ter ido ao mercado". Sentou-se na sala, abriu um jornal e caiu no sono. Acordou assustado. "Que horas são? A reserva é pras 9:30". Olhou no relógio, ainda faltava uma hora.

- Amor! A gente tá atrasado, marquei uma mesa pra gente, rápido.

Nada. "Já devia ter voltado". Vasculhou a casa de novo. Estava do mesmo jeito. "Eu já teria chegado uma hora dessas, onde ela se meteu?". Ligou para o celular. Nada. Ligou de novo. Nada. Na terceira vez, não foi ela quem atendeu. Três vezes maldita, por quê? Jogou fora o perfume, mas não as flores.