Então, na
verdade essa pauta nem é nenhuma novidade, mas eu assisti a este documentário
de novo recentemente e resolvi problematizar a garota raio-x. Pra quem nunca
assistiu, o Discovery Channel fez uma série de documentários especiais com uma
garota russa – hoje com 25 anos – chamada Natasha Demkina que alega possuir uma
‘visão privilegiada da anatomia humana”, que o Discovery preferiu, por motivos compreensíveis, chamar de visão de raio-x. Então, no já distante ano de 2004, o Discovery
Channel britânico veiculou “The Girl With X-Ray Eyes”.
Logo
no início, se levanta a questão mais interessante acerca da história toda. Parafraseando
livremente: “Se Natasha pode realmente fazer o que ela aparenta ser capaz de
fazer, então nós devemos mudar toda a compreensão científica do mundo”. Eis o
meu gatilho, por mais que o resto do documentário também seja interessante, no qual a
garota se submete a avaliações de céticos no Reino Unido e nos EUA, é essa a
questão que rege toda a relação que se estabelece entre crença e descrença, ou
respeito e desrespeito às afirmações sensacionais de Demkina.
E se? E se a
garota descobriu nela mesma uma capacidade inerente do humano que passara
batido?Aí então tudo muda. As verdades não são mais verdades, a ciência não faz
mais sentido e tudo pode ser questionado, cai por terra tudo que nossa
civilização construiu aos trancos até aqui. Basta ver a indisposição e a
hostilidade que a garota foi avaliada. Foi assumida desde o início a
impossibilidade do absurdo que seria a menina possuir uma visão
de raio-x, bem como um senso “nato” de diagnóstico – aspas pois ela alega ter
percebido seu superpoder aos 10 anos.
Veja bem, eu não
acredito que ela tenha tal capacidade, não mesmo... Desculpa, Natasha. E também
não importa se ela é uma super-humana ou uma embusteira mirim, pouco importa a
menina. Como assim? Por que raios então eu falei da dita cuja em primeiro lugar,
se ela não importa? É o medo que me chamou a atenção, sim, o medo. O quanto ele
faz as pessoas se sentirem acuadas com suas certezas diante do desafio de
compreender. É muito mais fácil simplesmente descartar do que construir
novamente algo que ia muito bem, obrigado, até agora a pouco.
Então se
conserva. O incrível é exatamente isso, indigno de crença, um simples devaneio
da falta de razão. Mas e o cogitus? Conhecem?
Cogitus, ergo sum? “Penso, logo
existo”. Foi assim que chegamos até aqui, foi cogitando que exploramos e
convertemos muitas brumas em conhecimento. Mas o medo trava o diálogo, anula a
compreensão, ou melhor, a disposição para compreender. Que interajamos sem essa
covardia. Se não, discutir é inútil.
Em anexo a primeira parte do documentário, em inglês.