sábado, 6 de outubro de 2012

Natasha Demkina



Então, na verdade essa pauta nem é nenhuma novidade, mas eu assisti a este documentário de novo recentemente e resolvi problematizar a garota raio-x. Pra quem nunca assistiu, o Discovery Channel fez uma série de documentários especiais com uma garota russa – hoje com 25 anos – chamada Natasha Demkina que alega possuir uma ‘visão privilegiada da anatomia humana”, que o Discovery preferiu, por motivos compreensíveis, chamar de visão de raio-x. Então, no já distante ano de 2004, o Discovery Channel britânico veiculou “The Girl With X-Ray Eyes”.

Logo no início, se levanta a questão mais interessante acerca da história toda. Parafraseando livremente: “Se Natasha pode realmente fazer o que ela aparenta ser capaz de fazer, então nós devemos mudar toda a compreensão científica do mundo”. Eis o meu gatilho, por mais que o resto do documentário também seja interessante, no qual a garota se submete a avaliações de céticos no Reino Unido e nos EUA, é essa a questão que rege toda a relação que se estabelece entre crença e descrença, ou respeito e desrespeito às afirmações sensacionais de Demkina.

E se? E se a garota descobriu nela mesma uma capacidade inerente do humano que passara batido?Aí então tudo muda. As verdades não são mais verdades, a ciência não faz mais sentido e tudo pode ser questionado, cai por terra tudo que nossa civilização construiu aos trancos até aqui. Basta ver a indisposição e a hostilidade que a garota foi avaliada. Foi assumida desde o início a impossibilidade do absurdo que seria a menina possuir uma visão de raio-x, bem como um senso “nato” de diagnóstico – aspas pois ela alega ter percebido seu superpoder aos 10 anos.

Veja bem, eu não acredito que ela tenha tal capacidade, não mesmo... Desculpa, Natasha. E também não importa se ela é uma super-humana ou uma embusteira mirim, pouco importa a menina. Como assim? Por que raios então eu falei da dita cuja em primeiro lugar, se ela não importa? É o medo que me chamou a atenção, sim, o medo. O quanto ele faz as pessoas se sentirem acuadas com suas certezas diante do desafio de compreender. É muito mais fácil simplesmente descartar do que construir novamente algo que ia muito bem, obrigado, até agora a pouco.

Então se conserva. O incrível é exatamente isso, indigno de crença, um simples devaneio da falta de razão. Mas e o cogitus? Conhecem? Cogitus, ergo sum? “Penso, logo existo”. Foi assim que chegamos até aqui, foi cogitando que exploramos e convertemos muitas brumas em conhecimento. Mas o medo trava o diálogo, anula a compreensão, ou melhor, a disposição para compreender. Que interajamos sem essa covardia. Se não, discutir é inútil. 


Em anexo a primeira parte do documentário, em inglês.