No alto da prateleira, encostado nas demais quinquilharias esquecidas pelo tempo e cobertas pela poeira, estavam estes soldadinhos de dar corda, brinquedos de uma criança já idosa.
Contentavam-se em andar, de um lado para o outro em estante e nela somente. Havia este soldadinho em especial que aprendera a locomover-se sozinho, os outros não lhe giravam as engrenagens, nem lhe davam um sequer empurrão, simplesmente punha uma perna à frente da outra. E assim ia, para frente, voltava, girava sobre as bases, marchava tão bem quanto os outros.
Um dia, enquanto os brinquedos de corda realizavam sua marcha habitual, uma pessoa se esticou até o alto da prateleira e lá colocou uma caixa de sapato. Pararam todos de marchar, analisando o objeto à sua frente. Entraram em formação de batalha, uma linha de tiro ao longo da caixa. A caixa movia-se aos solavancos. Quando a tampa levantou-se, saíram de lá mais soldadinhos de brinquedo. Eram modernos, mais bem acabados e equipados, intimidavam os surrados soldados à corda, que tremiam nas bases. A tensão permaneceu, os velhos em riste e os mais jovens a ignorá-los, pacificamente levantando seu acampamento. Com o cansaço, os velhos desistiram de ameaçar e voltaram a marchar de um lado para o outro.
Não se falavam, no entanto, os vizinhos. Como eram diferentes, estes eram movidos à pilha, eram mais ágeis, enquanto os mais antigos estavam sempre perdendo as forças por estarem incessantemente a marchar, os novos não, sentavam-se o dia todo, conversavam, riam, festejavam. Vendo aquilo, o soldadinho, que já não querido por seus iguais, atraía-se cada vez mais pelos belos soldados à pilha. Tomou coragem para falar-lhes, foi até sua caixa, marchando sem corda, como sempre. Admirados, os jovens acolheram o calejado, ensinaram-lhe a rir, a despir-se da disciplina de seu regimento.
Mas ele era lento, não compreendia por completo o estilo de vida de seus novos irmãos. Visitava-lhes sempre que podia.
Chegou o dia que lhe convidaram para ser um deles, deixar de andar á marcha lenta. Empolgado, deixou que instalassem nele uma bateria. Como era maravilhoso! Podia celebrar a vida e sua vida era brindar com seus companheiros, seus iguais, nunca mais retornou, fazendo da caixa de sapatos sua casa.
Muito tempo se passou e com ele desaprendeu a marchar por si. Já considerava impossível fazê-lo e também não queria mais. Percebeu, no entanto, que alguns de seus amigos começavam a ficar mais vagarosos, enrolavam-se nas palavras e esqueciam-se das coisas. Até que um dia, o primeiro parou, tornou-se apático e não reagia. Acabara sua pilha. Observou então um após o outro esvaziarem-se de expressão e movimento. Sentia ele próprio que suas energias se acabavam, cansavam-se facilmente. Neste ponto já não conseguia festejar, sorria com as lembranças de seus grandes amigos e do tempo que compartilharam. Assim petrificou-se, sorrindo. Ainda podia ouvir os outros marcharem lá fora.
