quarta-feira, 30 de abril de 2014

A Sociedade dos Canibais



O curso da história tomou abruptamente um destino cruel quando, por razões improváveis e quiçá até ilógicas, restou ao homem apenas ele mesmo. Não em um sentido filosófico, existencialista... Nada disso. Era tão literal quanto poder-se-ia digerir: Se foram todas as coisas. Todas. As que o homem inventou e as que ele havia tomado para si, tudo se foi.
Menos o homem.
Como todas as coisas grandiosas, os primeiros sinais desta reviravolta histórica foram modestos, escamoteados nos incríveis dilemas do cotidiano do homem. Pois foi assim que os lápis, as canetas e os gizes se foram, sem que ninguém ousasse prever o que estava por vir.
Por vir e se repetir, se repetir. Foi só no dia em que sumiram as cadeiras - um dia depois de sumirem as mesinhas de canto -, que por sua venerável racionalidade, os homens puderam vislumbrar o que o futuro lhes reservava: O apavorante mundo sem mobília e ferramenta.
E esse futuro não tardou a chegar. Um terror breve e absoluto é o que conta a história, da consciência do fato ao seu agonizante exaurimento. Emergiram conflitos de todos os tipos, massacres até, enquanto ainda existiu pólvora, lâmina e porrete, houve também o episódio da Bolha das Abotoaduras, o último objeto feito ou dominado pelo homem que restara àquela altura. Uma abotoadura valia a mão da filha de qualquer homem. Qualquer. E isso que já nem existiam camisas.
E assim, heroicamente, o homem - O Homem - se descobriu extremamente capaz de ser aquilo que ele próprio dobrara da natureza. Seria mobília, e seria tão bem quanto qualquer pedaço de madeira. Até melhor. Os sujeitos mais fofos davam sofás, pufes, divãs e poltronas de primeira linha. Os camaradas mais esguios e longilíneos podiam ser treinados para ficar perfeitamente imóveis, e então, como se pode esperar, tornavam-se mesas requintadíssimas e únicas.
O furor da mobília durou anos, enquanto um por um os móveis e utensílios da vida cotidiana iam sendo substituídos pelas pessoas adequadas, de tamanho e proporções adequadas. Havia tantos objetos a serem substituídos que a esta altura eram poucas as pessoas que tinham o privilégio de desempenhar o papel de gente neste ato.
Pouquíssimas.
Mas isso, é claro, durou até o dia de outra súbita reviravolta. Se passa que a realidade, por troça ou desatenção, esquecera de tomar outro bem do homem, tão apreciado quanto as abotoaduras. Ficaram assim desempregados os homens-despensa e meninos-jarro-de-biscoito. Fome, claro, desespero, claro, mas não por muito tempo, pois foi então que a mobília recomeçou a redesaparecer. Primeiro os sofás opulentos e espaçosos e não muito depois, mas não nesta ordem, os carrinhos de mão, os travesseiros, as telhas, as rodas de arado e até os ressequidos porta-chapéus. Toda homibiliária se iria assim, à milanesa e à moda do rei, até, é claro, se irem também as especiarias e as panelas – frigideiras, caldeiras, caldeirões, etc.
Ficou mesmo só o homem, não o mesmo do início, mas aquele que até aqui não fora homibilário nem bife à rolê, aqueles que puderam transitar livremente pelo valsante caos que se tornara a sociedade. Este mesmo que, nu e posto ao eterno relento, não abnegou de sua megalômana e vaidosa forma de viver, que não pode fazer outra coisa se não imaginar, criar, como no passado, que havia pavimentado o hora não-pavimentado e construído o hora não-construído, pôs-se a maquinear maravilhas a partir da única matéria prima disponível a eles: Eles próprios.
No entanto, estes mesmos avaliaram atenta e acertadamente que há um irremediável e deselegante vício na linha de produção de ser ao mesmo tempo, produto e consumidor. À luz dessa consideração, se faz necessário, para uma mais fiel representação destes acontecimentos, dissecar mais alongadamente a expressão “Eles próprios”, mesmo que de uma forma singela: Com a simples inclusão do advérbio “não” em literalmente qualquer lugar da expressão anterior. De forma que as expressões “Eles não-próprios”, “Não-eles próprios” ou “Eles próprios não”, exprimem com decisivo esclarecimento, clareza e precisão tanto a referida dicotomia quanto a solução mais natural.
Como bem se pode compreender e, embora nobremente investida do propósito sócio-heroico de dar prosseguimento à espécie humana, poucos são os homens sãos que por-se-iam voluntariamente em cardápio alheio.
Se é que a esta altura ainda há de se considerar a sanidade.
Pois, se haviam poucos dispostos a se voluntariar, havia tantos quanto se pode imaginar com fome. Fome. O que fez se porem frente a frente homem e homem, para brigar com os punhos até a morte - fosse ela imediata ou não. Os espólios eram os derrotados, fizeram-se alianças, travaram-se batalhas, batalhas, batalhas, sagrando-se vencedores aqueles que se intitulavam “Grande e Forte Aliança”. Formada por aqueles que mais tinham braços de cadeiras e pés de mesa estocados e, por isso mesmo, eram de fato grandes e gordos, fator determinante em combate, embora ambos e todos os lados pelejassem com ferocidade ímpar.
O nome da aliança, possivelmente alianças, derrotadas é hoje desconhecido, sendo todas as facções apelidadas genericamente de “Miúdos”.
Terminada a grande Guerra, fizeram-se grandes banquetes em memória aos heróis de guerra e cada homem tomou seu quinhão do prêmio e a esta altura aqueles que haviam se sagrado vitoriosos foram atravessados pela inquietude da bonança.
O que fazer agora? Como promover a paz e a bonança para os homens? Ou melhor, trazer paz e bonança para os homens ao mesmo tempo?
Sagazmente aperceberam que, diferentemente do dilema do ovo e da galinha, só o homem engendra homem e o mesmo se aplica aos Miúdos. A resposta para a iminente crise era a pecuária,  que em última análise era coisa que convenientemente os homens conhecem e dominam.
Verificou-se, no entanto, e logo no início, um inoportuno fato relativo à produtividade da homicultura. Acontece que, embora perfeitamente férteis, a específica matiz desta criação pode decidir se lhes é ou não conveniente procriar, o que para o homem certamente não o é.
A solução, embora simples, não poderia vir trajada senão de muito requinte. Instituíram um novo festival, uma nova ode à fartura, uma a ser comemorado todo ano na mesma época. Batizaram-no Segunda Páscoa. As celebrações consistiam em ruidosos banquetes de carne macia, seguida da cerimonial inseminação do gado, uma bela e estrondosa demonstração da força comunitária dos Grandes, quando toda a vizinhança se mobiliza para garantir a fertilização do máximo possível de gado de todas as criações.
Desta forma, os Fortes suprem de uma só vez dois reveses advindos da sua prévia constatação. Não significando, é claro que a homicultura como um todo dependesse desses rituais, pelo contrário, já haviam aprendido a processar a carne em outros subprodutos e a fecundação era provida ao longo de todo o ano pelo próprio proprietário, garantindo o fluxo constante das fazendas para o prato de cada homem.
Imaginar a abundância gerada por tal minuciosa genialidade é uma tarefa abstrativa de extrema dificuldade. Basta dizer que os homens bem sucederam em criar império a partir de uma única matéria prima, e se na fome ele fora inventivo, na opulência ele encontrou terreno fértil para explorar os limites da sua engenhosidade.
Nas pequenas coisas encontraram o sumo das grandes revoluções.
Refizeram os utensílios do dia a dia e para além deles, refizeram também espadas, lanças e porretes. Reinventaram bolas e bexigas, recriando assim, tanto o esporte quanto o espetáculo de sangue, a guerra de emoção e a emoção da guerra.
O Império Grande e Forte ergueu-se do impossível, e mirava ainda mais além, para as fronteiras de terra que ainda não haviam se submetido ao progresso, pois para todos lados havia terra em que não havia Império. Mais do que isso, eram povoados por selvagens – chamemo-los “Novos Miúdos”-, que estavam sempre a espreitar as riquezas trazidas pela inventividade do único povo realmente forte.
Isso sem falar que, estes selvagens, que sabiam fazer pouco mais do que fatiar carne e assá-la ao fogo, desperdiçavam dia após dia mais e mais o pouco – pouco - gado de seus rebanhos, já que não tinham a capacidade de aprender e dominar o ciclo de vida dos seus animais e bem aproveitar os bens provindos dele. Egoisticamente desperdiçavam o que era dos homens.
Partiu-se então para a guerra. Espadas contra punhos.
Os fortes, assaltando o rebanho Miúdo, capturavam-lhes as cabeças de gado e outras mais, celebrando a vitória à sua maneira, com banquetes e mais banquetes em homenagem aos heróis caídos e os inimigos vencidos. Daí a guerra virou caça, e não havia momento em que todos os exércitos imperiais estivessem estacionados, havia sempre uma expedição para se fazer, para levar a guerra e trazer o gado, encher a barriga dos soldados de banquetes e dos campesinos de orgulho, que o manifestavam sempre ao saudar a volta de mais um exército vitorioso com vivas, canções. Trovavam as façanhas no estrangeiro.
Cada Segunda Páscoa que passava, sua inventividade trazia aos fortes mais fartura, que trazia mais bens bem pensados, que lhes trazia a necessidade de ter mais gado, de levar mais guerra, de achar mais Míúdos, quão longe eles estivessem.

Ou perto. Perto era mais fácil.