O dia em que tudo mudou foi quando pendurei aquele quadro na parede. Ele era branco, tão branco que parecia emitir a própria luz, mas... não. Era pior que isso, ele era vazio. Eu o preguei à meia altura na frente da minha cama, onde eu podia vê-lo sempre. E eu fazia isso. Ficava parado, estático, olhando pra ele e quanto mais eu olhava mais eu tinha certeza que, na verdade, era ele que me olhava, do fundo daquele seu vazio.
Aquilo me perturbava. Muito. Na verdade já nem sabia se era eu mesmo que tinha o colocado ali ou se ele sempre estivera ali. Mas o que importava era que ele estava ali, estava ali e precisava de mim. Eu sabia o que tinha que fazer, mas não conseguia. De todas as tintas, canetas e lapises que eu tenho, nenhum parecia digno, não ainda. Passei a tocá-lo, tentar entender o que ele queria de mim, mas era difícil, difícil percebe-la sempre vazia, esperando que eu... Eu tinha que fazer mesmo? Já não sabia.
Então um dia eu simplesmente o tirei de lá, peguei um lápis quase sem ponta e rabisquei qualquer coisa. Um rosto. Sem olhos, sem sobrancelhas, sem expressão. Mas era algo. Aquele branco já não parecia brilhar em desafio na minha direção. Então pude dormir tranquilo aquela noite.
Mas foi daí em diante que comecei a ver branco em tudo. Em todas as folhas de caderno, páginas de livros. Tudo era para ser colorido, escrito e riscado. O branco, digo, o vazio é uma ofensa, então eu ando sempre munido nem que fosse de um lápis. Desfazer o vazio é indescritível, é simplesmente... viciante. E quanto maior o vazio, maior é a vontade de quebrá-lo. Eu comecei a vê-lo nas paredes, nos muros... nas pessoas. Por que no fim de toda essa confusão eu acabei descobrindo que na verdade sou eu que preciso do vazio e não o contrário. E... sei lá, se quiserem me achar, vou estar escrevendo alguma, desenhando ou rabiscando alguma coisa em algum vazio qualquer.
