segunda-feira, 29 de julho de 2013

Mar De Cinzas


Rumavam pelo deserto com o sol investindo impiedosamente contra suas costas e o vento árduo trazendo poeira a seus olhos, uma chicotada após a outra. Na areia acinzentada que fervia sob o sol do meio-dia, eles arrastavam os pés, se esforçando para que uma vez após a outra se mantivessem em pé. Atrás deles se formava um rastro sinuoso, fruto do rastejar custoso que era seu caminhar. Mas tão logo chegava o vento, levava consigo o tênue rastro dos seus pés e por isso, por mais que andassem deserto afora, nunca sabiam ao certo de onde haviam vindo e mesmo se por algum súbito instante se recordassem, o vento lhes estendia o braço e varria a memória.


Neste deserto, todos sabiam, os homens não simplesmente morriam. Por anos a fio, as cinzas os enfraquecia, lhes golpeando com um peso obsceno, para que no fim, o Sol lhes findasse, depedasando sua existência além da morte. Com os corpos cobertos de cinza e suor, eles endureciam, assando sob o sol. Eles próprios se tornando cinzas.. Chegava um dia que o impacto dos próprios pés ao tocar o chão bastava pra que o corpo se rachasse, desmoronasse em cinzas, sendo abraçado e levado pelo vento mesmo antes de tocar o chão. Para sempre desta vez.


Mas não todos. Alguns inexplicavelmente não se rachavam, acabando por se tornar uma espécie de pedra. Uma pedra cinza e opaca. Um túmulo que continha não só aquele homem que por desventura não se desfizera em milhões, mas também os de incontáveis desafortunados que repousavam nas dunas, na brisa, sob os pés e sobre a pele dos prisioneiros errantes que ainda se arrastavam pelo deserto. Todos eles estavam solidificados naquele rosto, grão por grão.


Muitos vieram e se foram sem nunca ter visto estes homens-pedra, mas eles habitavam seus pensamentos. Os que rumavam no deserto cinza, sem muitas vezes saber por que, quando viam sua carne tomar aquela cor, passavam a desejar não mais uma sombra e um pouco de água. Desejavam simplesmente, que ao fim de tudo aquilo - se é que havia um final – seu corpo não se esfarelasse ao vento, que suas memórias não fossem partidas em milhões e condenadas a vagar pra sempre sem cor e sem história e que pudessem descansar eternamente como eternamente pedra. Temiam acima de tudo jazer como cinzas incógnitas.