Para o resto do mundo, era uma manhã qualquer no ano de 1979. Physical Graffiti, do Led Zeppelin havia estreado há apenas algumas semanas no Brasil, e o estilo de Jimi Hendrix ainda era quase uma novidade por aqui. Tudo chegava mais tarde nessas terras. Apesar disso, a vida era boa para a maior parte da população. Mas não para eles. Não naquela manhã.
João era um garoto de quatro ou
cinco anos de idade. Classe média, vivia em um bom bairro de Porto Alegre, sua
família nunca passara por grandes dificuldades. Algo mimado, ele sempre ganhava
tudo que pedia aos pais. Uma das maiores preocupações que ele tinha era chegar
em casa cedo o suficiente para não perder nenhum episódio das telenovelas. Não
que ele fosse exatamente o maior dos noveleiros. Ele só gostava de ver as
imagens se mexendo dentro daqueles tubos; afinal de contas, era um bom
passatempo, já que sua mãe não o deixava sair de casa depois das seis da tarde,
nem mesmo para ir na casa de um amigo.
E, claro, no topo da lista havia
Louise, a garota da escolinha de João. Desde que ele a vira pela primeira vez,
pele clara e longos cabelos negros - quase uma antinomia, mas para ele fazia todo
o sentido -, o garoto se sentia nas nuvens toda vez que ia para a escola. O que
era para ser um dever “mono tom”, chato, quase que religioso, se transformara
exatamente no seu oposto. Ele já tentara chamar a atenção da sua infantil
atração de quase todas as maneiras possíveis para alguém de sua idade. Já havia
levado até mesmo flores (cortesia do avô, que sempre o apoiava naquela
investida), no que mais tarde se tornaria uma de suas melhores e mais
aleatórias lembranças, só sendo superada por aquele inocente beijo na bochecha
dado por ela uma vez naquela tarde de Janeiro.
O sentimento era recíproco do outro
lado. O coração da morena dava semipulos de alegria quando ela via o garotinho
gordo, estranho e meio tímido chegar todo dia, sempre com algo diferente em
mãos, somente para surpreendê-la. Passava por problemas em casa, os pais, pelo
que entendia, estavam quase se separando, não sabia com qual dos dois ficaria,
e João, do alto de seu pouco mais de um metro, era o que mais conseguia lhe
alegrar.
Mas esses dias já estavam no fim. O
último dia da escola havia sido na semana passada, e a família de Louise já aprontara
as malas, iam para uma outra cidade, a qual João não conseguia dizer direito o
nome, mas sabia que era muito longe, e nunca mais a veria. Do lado da Brasília
amarela, os dois pirralhos se despediam, em um dos domingos mais quentes do ano.
O pai dela pedia pressa, do contrário não chegariam a tempo, mas nenhuma das
crianças se importava muito. Não que eles soubessem o que falar um para o
outro. Nunca souberam, e a importância daquele momento não ajudava em muito.
Após ficarem alguns minutos juntos,
os dois ruborizados de vergonha e calor, ela finalmente deu um beijo de
despedida nele e, enfim, abriu a porta do carro do pai. Olhou para trás e viu
João com a mão onde o havia beijado (mais tarde, ele avisaria aos pais que
nunca mais iria lavar aquela bochecha; ele conseguiu manter a promessa por
exatas duas horas, tamanha a insistência da mãe), e ambos sorriram.
~
O ano de 2017 era o mais quente da
década, e aquela noite de setembro, dia 19, não era diferente. Marcelo não
gostava muito de frio, mas até para ele, que faria aniversário no dia seguinte,
o clima já passara dos limites do aceitável.
No entanto, tentou não ligar muito
para isso, afinal, dali a alguns minutos, finalmente seria maior de idade e,
juntamente com seus 18 anos, se tornaria homem. Nunca teve grandes problemas
para ficar com as garotas da escola e do curso pré-ENEM - embora não fosse exatamente do tipo
“pegador” -, mas, na hora “H”, sempre algo o impedia de seguir em frente, no
mais das vezes uma desculpa esfarrapada inventada no ato. Naquela madrugada,
entretanto, ele sabia que sua sorte mudaria.
Já passava da meia noite quando o
grupo de amigos de Marcelo finalmente chegara na boate Caverna Vermelha, no
Punto que o aniversariante “roubara” do pai (essa era a versão que contou aos
amigos; na verdade, os pais haviam emprestado o carro para ele, como parte do
presente do filho). O lugar era famoso por ser um dos melhores puteiros da
região. Um garoto do grupo, Alexandre, o mais descarado, foi falar alguma coisa
com a atendente, e deixou os outros ali, perto da porta.
As mãos de Marcelo tremiam. Ele já
tentara se acalmar, tomando um remédio que um de seus amigos o emprestara, mas
de nada ajudara com o nervosismo. Para tentar ganhar confiança, ele tentou se
lembrar do que vira no dia passado, naqueles filmes que baixara da Internet.
Foi aí que viu uma linda mulher passar por perto e olhar para ele de um jeito
provocante, como que o chamando. Ele não era idiota, sabia do que aquilo que se
tratava. Era o presente de aniversário que seus amigos haviam dividido entre si.
Então, adentrou no quarto junto com
a morena. Seu coração pulava pela boca. De fato, seria a noite que tudo
aconteceria e tiraria aquele peso das costas. “Até que enfim”, pensou. A prostituta de longos cabelos negros o
olhou de cima abaixo, soltou um risinho e deu um beijo na bochecha dele.
Mecanicamente, tirou toda a roupa e começou a despir Marcelo, quando este,
ainda nervoso, perguntou qual era o nome da mulher que tiraria sua virgindade.
“Louise”, ela respondeu.
Um salve pra Derpina de cabelos azuis, que deu a ideia do nome da personagem feminina e revisou o texto.
